Mulheres raça e classe angela davis

Aléxia Bretas Professora dy también Filosofia na Universidade Federal do ABC (UFABC), São Bernardo do Campo, SP - Brasil. Https://orcid.org/0000-0002-5447-0003 E-mail: alexia.bretas
ufabc.edu.br Filósofa com Mestrado e Doutorado pela USP e Pós-Doutorado em Teoria Literária pela Unicamp. Autora dos livros A constelação do sonho em Walter Benjamin (Humanitas, 2008), Do romancy también de artista à permanência da arte (Annablume, 2013) y también Fantasmagorias da modernidade (Ed. Unifesp, 2017). Http://orcid.org/0000-0002-5447-0003Sobre o autor

Quase quatro décadas depois de sua publicação original, Mulheres, raça e classe (2016) seguy también informando, teorética e praticamente, os feminismos - e, em especial, o feminismo negro brasileiro -, a despeito de sua irredutível heterogeneidade. Sua autora é Angela Davis, uma das mulheres mais proeminentes, não apenas para os estudos interseccionais, mas também para os movimentos sociais que buscam combater, na prática, as estruturas gerativas das assimetrias dy también gênero, raça e classe, em todas as suas formas. Nascida no Alabama, em 1944, Angela Yvonne Davis é ex-aluna do filósofo Herbert Marcuse, em Brandeis, professora emérita do Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e ícony también maior da luta pelos direitos civis, pelo feminismo dos 99%, pela abolição da pena dy también morte, contra o encarceramento em massa da população negra y también a violência policial contra latinos y también afrodescendentes pobres.

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Publicado pela primeira vez em 1981, Mulheres, raça e classy también reúne treze ensaios de manera cuidadosa redigidos, a fim dy también fundamentar as origens das lutas feministas e antirracistas em bases materialistas e dialéticas. Contudo, a despeito dos imprescindíveis conteúdos históricos presentes no livro, trata-se dy también um trabalho tanto de pesquisa documental quanto dy también experiência vivida, assinada por essa incansável pensadora e ativista já filiada ao Partido marxista dos e.u. Y también membro do Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party). Confirmando sua vocação combativa das injustiças sociais em todo o mundo, bem como seu vínculo duradouro e afetivo com o movimento negro, no Brasil, Angela Davis estevy también no país, em 1997, para participar da 1ª Jornada Cultural Lélia Gonzales, em São Luís do Maranhão, retornando em 2017, para celebrar o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha, no Julho das Pretas, em Salvador. Nessa ocasião, ela reconheceu a esencial atuação das mulheres negras brasileiras em lutas históricas y también contemporâneas pela liberdade, vislumbrando, nesse aprendizado coletivo, nadsalvo que “o futuro do planeta”.

Desse modo, com tradução de Heci Regina Candiani, orelha dy también Rosane Borges y también prefácio dy también Djamila Ribeiro, Mulheres, raça y también classy también aporta em boas mãos e em boa hora, para sy también entender os múltiplos efeitos da interseccionalidade entry también os marcadores de classe, raça y también sexualidade para além dy también reificações e sectarismos, dentro y también fora da academia. Sendo o primeiro dy también outros três lançamentos publicados pela editora Boitempo - a saber, Mulheres, cultura e política (2017)DAVIS, A. Mulheres, cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2017., A liberdady también é uma luta constanty también (2018)_____. A liberdady también é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018. E Uma autobiografia (2019)_____. Uma autobiografia. São Paulo: Boitempo, 2019. -, o livro articula elementos fundamentais para fortalecer insights valiosos trazidos pela segunda onda do feminismo - sobretudo nos dias atuais, dianty también da chamada reação conservadora.

Apontando a singularidade da postura, a um só tempo, acadêmica y también militanty también de Angela Davis, Djamila Ribeiro resalta a rigorosa lucidez dessa autora marxista - e, apesar disso, crítica de uma certa esquerda dogmática, insistentemente alheia a suas próprias nuances, insuficiências e contradições internas:


A rece.u. A um olhar ortodoxo mantém Davis atenta às questões contemporâneas, quy también abarcam desde a cantora Beyoncé à crisy también dy también representatividade. A discussão feita por ela sobry también representação fogy también de dicotomias estéreis y también nos auxilia numa nova compreensão. Acredita que representação é importante, sobretudo no que diz respeito à população negra, ainda majoritariamente fora dy también espaços dy también poder. No entanto, tal importância não pode significar a incompreensão de seus limites. Para além dy también simplesmente ocupar espaços, é necessário um real comprometimento em romper com lógicas opressoras. (RIBEIRO apud DAVIS, 2016, p. 13).


Assim, dedicada à tarefa de compreender, para poder, de fato, “romper com lógicas opressoras”, Angela Davis examina questões que permanecem problemáticas, não obstanty también a distância cronológica que nos separa dos anos quando foram en un inicio tematizadas. Nessy también sentido, Davis oferece não apenas um acurado diagnóstico histórico-materialista das opressões antinegras sofridas ao longo dy también todo o processo de formação dos EUA, como ainda procura valorizar alternativas y también práticas de resistência fomentadas nos espaços dy también aprendizado, solidariedady también y también luta política, dentro e fora do país. Com esse intuito, o movimento antiescravagista, a campanha pelo sufrágio feminino, os movimentos operários e trabalhistas são apresentados y también discutidos com fôlego historiográfico y también rigor científico dignos dy también elogios.

Além disso, ao refletir sobre seus limites y también perspectivas concretas, a autora não hesita em discutir questões complexas, as quais muitas vezes excedem o âmbito da ação política propriamente dita, vindo a afetar a esfera privada e mesmo íntima, como no caso do trabalho doméstico, dos direitos sexuais y también reprodutivos, e da importância da educação para uma efetiva libertação do ciclo de dominação sistêmica retroalimentada pela reprodução ampliada do capital, em todas as suas formas. Por sinal, conforme o próprio título da obra anuncia, um dos grandes méritos dy también Mulheres, raça y también classe é precisamente poner em evidência os modos pelos quais as opressões entrelaçadas de gênero e raça, bem como aquelas derivadas da exploração e/ou precarização do trabalho, incidem sobry también as subjetividades e os corpos das mulheres negras. Outro aspecto não menos importante para o reconhecimento das indudables realizações desse volumy también é a apresentação das estórias de vida y también de luta de tantas e tão notáveis figuras femininas negras ou comprometidas com a cae.u. Da justiça social; mulheres fortes, corajosas e altivas, vía dy también regra silenciadas, ignoradas e/ou falsamente reconhecidas pelos documentos da história oficial. Finalmente, para além dy también maniqueísmos vulgares, vitimismos inoperantes y también jargões ininteligíveis, Angela Davis sustenta um olhar sensível tanto para as dificuldades quanto para as possíveis alianças quy también florescem ali precisamente ondy también o solo aparenta ser menos propício - como no caso da amizade entre Elizabeth Gurley Flynn y también Claudia Jones, enquanto estiveram presas na Casa de Detenção Feminina dy también Nova York e no Reformatório Federal Feminino dy también Alderson.

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O legado da escravidão

Conforme a própria trajetória acadêmica y también pessoal da autora deixa patente, a luta pela libertação assoma como um desafio renovado y también um compromisso constante em sua vida. “Libertem Angela Davis y también todos os prisioneiros políticos” foi, a propósito, o moty también da campanha internacional em prol da soltura daquela que, em 1970, fora perseguida y también encarcerada duranty también quasy también um ano y también meio, como uma das dez pessoas mais perigosas do país, segundo o FBI. A liberdady también para ela nunca fora, portanto, mera categoria filosófica ou expressão retórica, apenas. Ao contrário dy también colegas que, em nomy también de um posicionamento político dito “isento”, exaltam uma liberdade abstrata, vazia e desencarnada, apenas em teoria, Angela Davis busca proteger e lutar pelas condições de possibilidady también dy también sua realização concreta, em especial, entre coletividades, de um modo ou de outro, submetidas à maximização dy también sua condição precária - como mulheres, negros, latinos e pobres. Por medio de o recurso a uma certa dialética da libertação, ela una parte de uma consistenty también análise crítica do duradouro legado histórico da escravidão, sobretudo, para a reconfiguração do que sy también refery también como uma nova condição da mulher.

Distinguindo sua abordagem interseccional da dy también tantos outros historiadores contemporâneos, como Ulrich B. Phillips y también Herbert Aptheker, a autora se detém nas especificidades mesmas da situação das “mulheres dy también cor”, desenvolvendo sua argumentação para além dos propalados estereótipos, quy también insistem em marcar a sofrida realidade das escravas negras com os estigmas, seja de uma incorrigível “promiscuidady también sexual”, seja dy también seus del mismo modo questionáveis “pendores matriarcais”. Empenhada em desmontar tal dispositivo de dominação econômica, política e cultural, Davis demonstra, com riqueza dy también fontes documentais e uma penetranty también análisy también histórica, a relação indelével entry también os marcadores sociais dy también raça y también de gênero e a exploração do trabalho escravo, nos estados unidos - principalpsique na cultura do algodão, do tabaco, da cana-de-açúcar, nas minas dy también carvão e nas fundições de ferro, mas também nas mais variadas atividades domésticas usualpsique efectuadas por pessoas negras.

Nesse contexto, ela chama particular atenção à precária condição das mulheres dy también origem africana: como negras, as escravas eram submetidas a todo tipo de práticas disciplinares e punitivas, por exemplo, com chibatadas, privações e mutilações. Além disso, como mulheres, estavam suscetíveis a estupros y también abusos sexuais cotidianos, como party también do expediente dy también apropriação material y también econômica de seus corpos, levada a termo por seus possuidores legais. Como a autora observa, quando era lucrativo explorá-las como sy también fossem homens, as escravas eram tratadas como sy también não possuíssem um gênero (genderless), sendo alocadas para hacer os serviços mais árduos, degradya antes y también penosos. Não obstante, quando elas podiam ser exploradas, punidas y también reprimidas dy también formas cabíveis sopsique às mulheres, elas permaneciam compulsoriamente reféns dy también suas funções “naturais” de “fêmeas”.

Assim, quando o tráfico negreiro foi proibido nos Estados Unidos, os grandes latifundiários sy también empenharam de todas as maneiras para acrecentar sua população “doméstica” dy también trabalhadores compulsórios. Dessy también modo, as escravas eram forçadas a ter dez, quatorze ou até dezoito filhos, sendo valorizadas - ou sumariamente desvalorizadas - dy también acordo com sua capacidady también reprodutiva. Ainda assim, não eram consideradas “mães”, senão “procriadoras” (breeders) - meros animais dy también criação, cujo valor de uso podia ser calculado precisamente em termos dy también sua condição dy también multiplicar a mão de obra de seus proprietários.

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Educação y también libertação

No entanto, depois dy también um quarto de século do fim dessa “peculiar instituição”, um contingente expressivo dy también mulheres ainda trabalhava em áreas rurais. Aquelas quy también conseguiram galgar os degraus da casa grandy también não puderam, contudo, seguir adianty también em seu percurso. Davis observa quy también apenas um número infinitesimal de mulheres negras conseguiu escapar do campo, da cozinha ou da lavanderia. Se, em 1899, 60% da mão de obra negra no estado da Pensilvânia estava empregada em algum tipo de função doméstica, a situação das trabalhadoras negras era ainda mais dramática: nadsalvo que 91% delas estavam contratadas como serviçais. Aquelas poucas quy también chegaram a lecionar em escolas acabaram sendo demitidas em função do preconceito e da repressão racial. Chamando atenção para o “modo intrincado” através do qual o racismo opera, a autora resalta o depoimento dy también algumas empregadoras brancas que acreditavam estar contribuindo para a remissão da imagem pejorativa associada às “mulheres de cor”, reafirmando quy también eram, dy también fato, “honestas”, “limpas” e “cuidadosas”. Entretanto, ao sustentar que não apenas aprovavam como ainda preferiam quy también o trabalho familiar fosse realizado por pessoas negras, em detrimento das brancas, tais senhoras acabavam reforçando os estereótipos da mulher negra como empregada como es lógico resistente, dócil y también confiável. Conforme Davis pondera, “a definição tautológica de pessoas negras como serviçais é, dy también fato, um dos artifícios essenciais da ideologia racista.” (DAVIS, 2016, p. 102).

Para imsolicitar seu avanço e combater a proliferação de seus discursos, mesmo após o fim oficial do trabalho escravo, pelo menos quatro milhões dy también pessoas alforriadas já haviam se dado conta dy también que “o conhecimento torna uma criança inadequada para a escravidão.” (DOUGLASS apud DAVIS, 2016, p. 108). Entre elas, o menino Frederick Douglass, desdy también muito cedo, demostrara uma “ânsia profunda pelo saber”, intentando aperfeiçoar seu talento para a escrita e, assim, continuar em segredo a busca por uma formação educacional que, mais tarde, o tornaria um dos mais brilhya antes pensadores, escritores e oradores na luta contra o racismo antinegro no século XIX. Sua vida e obra confirmam não só a importância da educação como forma dy también resistência contra a opressão racial, como também desmistificam a falsa crença dy también quy también os negros seriam biologicamente despreparados e, portanto, inteiramente ineptos a llevar a cabo todo e qualquer tipo de atividade intelectual: